O que é Natureza? O que é Natural? Shakespeare como filósofo da História

Agnes Heller

Resumo


A filósofa Agnes Heller no seu artigo "O que é Natureza? O que é Natural?
Shakespeare como Filósofo da História", observa que o bardo, em sua
obra, dificilmente menciona a ordem cósmica, tendo-a subestimado.
Shakespeare tampouco teria criado um espaço ou uma ordem
metafísicos: "Seu senso de ordem, particularmente seu senso de ordem
espacial, está mais próximo do Renascimento que do Barroco. Sua
visão trágica não é apocalíptica, mas estritamente histórica. Eventos
incomuns e ameaçadores, catástrofes naturais ou irregularidades, como
tempestades e abortos, são freqüentemente lidos pelas personagens
shakespearianas como sinais de males políticos presentes ou indícios
de uma futura mudança histórica, mas não têm nenhuma implicação
cósmica". Na sua fórmula, o tempo estaria fora dos eixos: "Não há
nenhuma intervenção cósmica ou divina no teatro shakespeariano".
Shakespeare não concordaria plenamente com o ditum hegeliano de que a
única coisa que se aprende da história é que nada foi, jamais, aprendido a
partir dela. Apesar de considerar a História imprevisível, Heller compara
Shakespeare a Maquiavel: afinal, o florentino estabeleceu algumas
regularidades na história política, e se elas existem, então se podem
prever certos desenvolvimentos; daí que certos tipos de regularidades
também podem ser observados em Shakespeare. Mas Shakespeare está
menos interessado em regularidades que na singularidade de uma ação, 

no encontro pessoal fortuito e no impacto recíproco de personalidades,
e, assim, no desenrolar dos acontecimentos. A politica é sempre medida
pelos resultados de ações, e a História pela sua qualidade. Mas não há
retorno ao início, e não se pode traçar um movimento unidirecional na
seqüência de acontecimentos. E isto é decisivo, pois mesmo que não
haja um relato completo do porquê e do "para quê", toda personagem é
marcada pelos seus atos: até onde uma personagem vai, a que ponto uma
personagem se detém, tem importância absoluta. Pois há um ponto do
qual é impossível retornar. Uma pessoa pode se inventar e se reinventar.
Seu caráter se desdobra, e ela pode começar novamente. Contudo, depois
de um certo ponto, a personagem entra em queda livre: a aceleração.
Não há retorno a partir do momento que a queda livre começa. Esta
é a razão de Lukács ter dito no ensaio "A Metafísica da Tragédia" (A
Alma e as Formas) que o herói trágico está morto no momento que surge
em cena. Heller discorda deste juízo, pois crê que as personagens de
Shakespeare podem se reinventar até um certo ponto.

Na visão da história de Shakespeare, o importante não são os fatos,
mas o modo de pensá-los ou imaginá-los: há o predomínio ou o peso
da subjetividade. A pior historiografia seria acreditar em uma única
interpretação de um fato como sendo algo final. É má historiografia
atribuir uma única interpretação a um fato, porque, ao fazer assim,
identifica-se o fato com esta interpretação e com a teoria. Com toda a
probabilidade, o fato será mal interpretado. Como as coisas "realmente"
aconteceram é uma questão relevante para as personagens de Shakespeare.
Mas "realmente" não seria um fato, mas um espaço que permite várias
interpretações: suas personagens agem com base em suas crenças e crenças
simuladas, concebem como verdade o que desejam ser verdadeiro: esta
é a verdade para elas.


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