Utopias literárias x utopias socialistas: será o trabalho um traço comum?

Juliana Zanetti de Paiva

Resumo


Nas utopias renascentistas literárias escritas por Morus - Utopia (1516), Campanella – A Cidade do Sol (1602) e Anton Francesco Doni – Mundo Sábio e Louco (1552)os seus autores pintam o quadro de sociedades nas quais as atividades produtivas devem ser realizadas por todos. Do mesmo modo, é constante nessas obras a condenação dos ociosos. Há quem defenda que as atividades produtivas desenvolvidas nessas obras independentemente do tipo e do objetivo a que se propõem sejam conceituadas como trabalho. Seguindo esse raciocínio, qualquer atividade em que haja dispêndio de energia, independente do quadro social histórico, deve ser entendida como trabalho.

Na utopia socialista que se materializou na União Soviética também havia a condenação dos ociosos, mas, ao mesmo tempo, uma glorificação do trabalho, “Afastai os ociosos” - proclama o hino da Internacional Comunista. Nesse caso, diferentemente das utopias literárias, as atividades produtivas podem ser vistas historicamente como pertencentes ao conceito moderno de  trabalho, tal como no capitalismo.

Embora muitos autores pretendam traçar um paralelo entre essas atividades produtivas tanto nas utopias literárias quanto nas socialistas, nosso objetivo é refletir sobre o fato de que as atividades produtivas nas utopias não podem ser definidas como trabalho. Nesse sentido, discutimos a importância crítica desse conceito ou sua inexistência nessas obras. Não para negar que os autores estivessem defendendo atividades produtivas, mas para desenvolver a hipótese de que aquilo que os autores descreveram como atividades produtivas, lúdicas e intelectuais não pode, em nenhum caso, ser chamado redutoramente de trabalho - sob pena de incorrer na retroprojeção de um conceito em épocas anteriores à sua aparição.

Texto completo:

PDF

Referências


ARENDT, Hanna. A condição Humana. Trad. Roberto Raposo. 10 ed. Rio de Janeiro: Forense Universitária, 2007.

CANDIDO, Antonio. Formação da literatura brasileira. 9 ed. Rio de Janeiro: Editora Itatiaia Limitada, 2000.

CAMPANELLA, Tommaso, GIORDANO, Bruno; GALILEU, Galilei. Os Pensadores. Trad. Helda, Barraco, Nestor Deola, Aristides Lôbo. 2 ed. São Paulo: Abril Cultural, 1978.

DONI, Anton Francesco. "Uma utopia do cinquecento: "Mondo savio e pazzo". Trad. Carlos E. O. Berriel. In: Remate de Males n. 22, IEL-Unicamp, 2002.

HELLER, Agnes. O homem do Renascimento. Trad. Conceição Jardim e Eduardo Nogueira. Editorial Presença: Lisboa, 1982.

JAPPE, Anselm. As aventuras da mercadoria. Trad. José Miranda Justo. Antígona: Lisboa, 2006.

KURZ, Robert. O desfecho do masoquismo histórico. In: Os últimos combates. Rio de Janeiro: Editora Vozes, 1997.

____________. O colapso da modernização: da derrocada de caserna à crise da economia mundial. Trad. Karen Elsabe Barbosa. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1992.

____________. “A substância do capital”. In: http://obeco.planetaclix.pt, 2005.

LE GOFF, Jacques. Para uma outra Idade Média: tempo, trabalho e cultura no Ocidente. Trad. Thiago Abreu, Lima Florêncio, Noéli C. M. Sobrinho. Rio de Janeiro: Vozes, 2013.

MARX, Karl. O capital - crítica da economia política. Trad. Régis Barbosa e Flávio R. Kothe. São Paulo: Abril Cultural, 1983.

__________. A ideologia alemã: crítica da mais recente filosofia alemã em seus representantes Feuerbach, B. Bauer e Stirner, e do socialismo alemão em seus diferentes profetas (1845-1846) / Karl Marx, Friedrich Engels. Trad. Rubens Enderle Nélio Schneider, Luciano Cavini Martorano. São Paulo: Boitempo, 2007.

__________. Grundrisse: manuscritos econômicos de 1857-1858: esboços da crítica da economia política. Trad. Maria Duayer, Nélio Schneider. São Paulo: Boitempo; Rio de Janeiro: Ed. UFRJ, 2011.

MORE, Thomas. Utopia. Trad. Jefferson Luiz Camargo, Marcelo Brandão Cipolla. 3 ed. São Paulo: Editora Martins Fontes, 2009.

POSTONE, Moishe. Time, Labor and Social Domination: A Reinterpretation of Marx's Critical Theory. Trad. livre. New York and Cambridge: Cambridge University Press, 1993.


Apontamentos

  • Não há apontamentos.