Da revolução ao totalitarismo: a herança de Nós, de Eugene Zamiatin, para as distopias do século XX

Evanir Pavloski

Resumo


Escrito entre 1920 e 1921, o romance Nós de Eugene Zamiatin representa um marco na história da literatura distópica e na sua relação sempre controversa com os ideais revolucionários. Em grande medida baseada nas experiências pessoais no autor nas revoluções de 1905 e, principalmente, de 1918, a obra figura uma sociedade prospectiva, na qual os princípios norteadores da transformação sóciopolítica resultaram na consolidação de um regime centralizador e opressor. Entretanto, o romance extrapola o contexto histórico de sua produção e se notabiliza como um discurso problematizador do impulso utópico que subjaz ao espírito revolucionário. Essa dimensão retórica da obra – que se inscreve na historicidade sincrônica de sua escritura, mas dialoga diacronicamente com o pensamento utópico secular – influenciou sobremaneira a produção de textos distópicos ao longo do século. Assim, a utopia do cientificismo progressista ecoa em Admirável mundo novo de Aldous Huxley, a vigilância panóptica é instrumentalizada tecnologicamente nas teletelas de 1984 de George Orwell e o racionalismo cartesiano reverbera no saneamento emocional em Fahrenheit 451 de Ray Bradbury. O romance de Zamiatin estabeleceu ainda um modelo de dicção literária e de estrutura narrativa que foram aplicadas não apenas na literatura, mas também em outras realizações artísticas como, por exemplo, o cinema e as graphic novels. Diante disso, o objetivo da presente comunicação é analisar a sociedade distópica figurada em Nós e parte do legado intertextual que o romance deixou para os distopistas posteriores.


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Referências


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