Lugares queertópicos: breve passeio pelas cartografias possíveis dos corpos no filme XXY (2007), de Lucía Puenzo

Fabiana Gomes de Assis, Ildney Cavalcanti

Resumo


Se somos validadas/os como reais por meio de uma intricada relação de forças que opera na e pela linguagem sobre a história e a cultura de modo a prefigurar normativamente nossas existências, em ambos os aspectos, individual e coletivo, isso quer dizer que a forma como significamos o mundo e nós mesmas/os depende intrinsecamente da rede discursiva na qual estamos inseridas/os enquanto seres humanos. Trata-se de um modelo político disciplinar que atua na produção de corporalidades e espacialidades contidas e até assépticas, sustentadas por noções dicotômicas de gênero, etnia e classe. O questionamento dessa prerrogativa, em sentido oposto, alinha-se à tentativa de reivindicar a legitimação das experiências que não refletem esse poder disciplinar e, assim, inserem-se numa esfera não subordinada ao sistema de representação binário. Sob um viés mais específico que põe em diálogo Estudos queer e Estudos Críticos da Utopia, o qual propomos neste artigo, significa vislumbrar outras formas de relacionalidade capazes de romper com a lógica que restringe a noção de humano ao jogo superficial das escolhas, no qual a existência de um indivíduo é legitimada pela necessária inexistência de outro, ou, como sucintamente sugere Esteban Muñoz, trata-se de promover quebras em “qualquer entendimento ossificado do humano” (2009, p.25-26). Quando a representação não é mais suficiente, o que resta? Imaginar outros cenários e outros seres em um horizonte aberto à experimentação, como tão bem nos ensina a arte de modo geral. É nesse terreno do imprevisível que residem as cartografias futuras possíveis de corpos e de espaços-tempos que, legitimados em suas próprias contradições, oferecem-nos realidades mais densas e criativas. Em diálogo também com as teorizações empreendidas por Butler (2004), Halberstam (2005), Braidotti (2013), entre outras/os, convidamos-lhes a fazer esse breve passeio pelos pantanosos circuitos ficcionais do filme XXY (2007), de Lucía Puenzo, a fim de juntas/os refletirmos sobre os mecanismos narrativos que corroboram as realidades outras almejadas por uma visão queertópica.


Texto completo:

PDF

Referências


BLOCH, Ernst. O Princípio Esperança I. Tradução Nélio Schneider. Rio de Janeiro: EdUERJ, Contraponto, 2005.

BRAIDOTTI, Rosi. The Posthuman. UK: Polity Press, 2013.

BRANDÃO, I.; ALBUQUERQUE, F.; AUSTRILINO, L.. “Corpo, arte e ensino de ciências – visões interdisciplinares”. In: BRANDÃO, Izabel (Org.) O corpo em revista: olhares interdisciplinares. pp. 17-38. Maceió: Edufal, 2005.

BUTLER, Judith. Undoing gender. New York: Routledge, 2004.

CABRAL, Mauro; BENZUR, Gabriel. “Cuando digo intersex. Un diálogo introductorio a la intersexualidad”. In: Cadernos Pagu. Nº 24. Pp. 283-304. Campinas, 2005.

CABRAL, Mauro. “Pensar la intersexualidad, hoy”. In: Sexualidades Migrantes, Género y Transgénero. pp. 117-126. Buenos Aires: Editorial Feminaria, 2003.

_____. La excepción y la regla. [Entrevista concedida a] María Moreno. 21 mar. 2004. Disponível em: < https://www.pagina12.com.ar/diario/suplementos/radar/9-1316-2004-03-21.html >. Acesso em maio de 2019.

CHEVALIER, Jean; GHEERBRANT, Alain. Dicionário de Símbolos. Tradução Vera da Costa e Silva, Raul de Sá Barbosa, Angela Melim, Lúcia Melim. Rio de Janeiro: José Olympio, 1994.

DE LAURETIS, Teresa. Technologies of gender: essays on theory, film, and fiction. UK: Macmillan, 1994.

FAUSTO-STERLING, Anne. “The five sexes: why male and female are not enough”. The sciences. New York: New York Academy of Sciences, 1993.

_____. “The five sexes, Revisited”. The sciences. New York: New York Academy of Sciences, 2000.

HALBERSTAM, Judith. In a queer time and place: transgender bodies, subcultural lives. New York: University Press, 2005.

hooks, bell. “O olhar oposicional: espectadoras negras”. Tradução Raquel D’Elboux Couto Nunes. pp. 483-509. In: BRANDÃO, Izabel; CAVALCANTI, Ildney; COSTA, Claudia de Lima; LIMA, Ana Cecília Acioli (Organizadoras). Traduções da Cultura: Perspectivas Críticas Feministas (1970-2010). Maceió/Florianópolis: EDUFAL; Editora da UFSC, 2017.

MAIA, Dhiego. Bolsonaro propõe reduzir verbas para cursos de sociologia e filosofia no país. Disponível em: https://www1.folha.uol.com.br/educacao/2019/04/bolsonaro-propoe-reduzir-verba-para-cursos-de-sociologia-e-filosofia-no-pais.shtml. Acesso em 10 de maio de 2019.

MUÑOZ, José Esteban. Cruising utopia: the then and there of queer futurity. New York and London: New York University Press, 2009.

PÉRET, Flávia. “Intersexualidade versus intertextualidade – uma leitura crítica do filme XXY”. In: Anais do V Congresso Brasileiro de Hispanistas UFMG. Belo Horizonte: Faculdade de Letras da UFMG, 2009. Disponível em: < http://150.164.100.248/espanhol/Anais/anais_paginas_%20503-1004/Intersexualidade.pdf >. Acesso em maio de 2019.

PUENZO, Lucía XXY. Argentina: Historias Cinematográficas Cinemanía, 2007 (86min).

RICH. Adrienne. Compulsory Heterosexuality and Lesbian Existence. Blood, Bread and Poetry: Selected Prose 1979-1985. New York: W.W. Norton & Co., 1986.

WITTIG, Monique. “O Pensamento Straight”. In: BRANDÃO, Izabel; CAVALCANTI, Ildney; COSTA, Claudia de Lima; LIMA, Ana Cecília Acioli (Organizadoras). Traduções da Cultura: Perspectivas Críticas Feministas (1970-2010). Maceió/Florianópolis: EDUFAL; Editora da UFSC, 2017.


Apontamentos

  • Não há apontamentos.