Da idéia de perfeição como elemento definidor da utopia: as utopias clássicas e a natureza humana

Jean-Michel Racault

Resumo


A articulação do modo utópico, freqüentemente definido como a aspiração realizável ou não a uma sociedade perfeita (considerada independentemente do modo como essa aspiração é formulada literariamente), com o gênero utópico, forma literariamente codificada das representações sociais imaginárias, é uma questão difícil em todos os contextos e em todas as épocas. Particularmente nas utopias ditas "clássicas", que se estendem grosso modo de 1675 a 1795 – da Terre Australe Connue de Foigny a Aline et Valcour de Sade –, em que a codificação literária toma geralmente a forma de um suposto relato de viagem a uma ilha desconhecida, enquanto que a axiologia do modo utópico e sobretudo a noção de perfeição que lhe é normalmente associada são ou ambíguas, ou contestadas pelo roteiro narrativo escolhido.
Gostaríamos de mostrar que nos grandes textos utópicos deste período a aspiração à sociedade perfeita – supondo que podemos definir o que seria uma sociedade perfeita – não é necessariamente um ideal concebido como realizável ou mesmo desejável, mas sim um meio de análise crítica das sociedades existentes, ou uma hipótese heurística para uma experimentação imaginária, ou ainda uma especulação antropológico-teológica sobre "possíveis paralelos".
Mesmo nos autores libertinos ou ateus, a impregnação cristã impõe a idéia de uma natureza humana imperfeita e intangível que entra em conflito com a construção de uma sociedade perfeita. Os textos se dividem em duas categorias: 1) os que, a partir da constatação da imperfeição da natureza humana, buscam um modelo de sociedade apropriado para conter ou utilizar as taras (Veiras, Histoire des Sévarambes) ou para manipular as paixões (Sade); 2) os que, a partir da mesma constatação, inventam uma raça de seres perfeitos para habitar uma sociedade igualmente perfeita (Foigny, Swift).
Neste caso, a utopia perde sua exemplaridade: os hermafroditas de Foigny ou os houyhnhnms de Swift não são mais seres "humanos" propriamente ditos e a perfeição de sua sociedade se revela incompatível com a imperfeição do homem real. Devemos, então, falar de antiutopia? Não, pois as sociedades apresentadas são sociedades perfeitas. Mas é precisamente esta perfeição que os torna ao mesmo tempo fascinantes e terríveis. A inumanidade, em todos os sentidos do termo, não seria a conseqüência lógica de uma aspiração à perfeição no mundo terrestre – aspiração vã ou então essencialmente herética se dermos crédito à Teodicéia de Leibniz, onde a palavra utopia é empregada pela primeira vez em seu sentido genérico?


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