Reminiscências e observação no universo dos viajantes dos séculos XIV e XV

Susani Silveira Lemos França

Resumo


Quando refletimos sobre os relatos de viagem de peregrinação medievais que chegaram até nós, podemos notar que observação direta e reminiscências literárias surgem de tal forma articuladas ao ponto de não se fazerem distinguíveis, compondo juntas o arcabouço de valores que proporcionou que os medievais se percebessem e percebessem aqueles com quem aos poucos tomaram contato: os orientais. Num rápido inventário das descrições de povos e lugares que circundavam a Terra Santa, nota-se, à partida, que certa recorrência de imagens está ligada à sobreposição de doutrinas que circulavam desde a Antigüidade e que conduziam as impressões dos viajantes desejosos de encontrar, através da observação direta, matéria para surpreender seus conterrâneos curiosos com as gentes dos lados de lá; umas gentes que ofereciam parâmetros para que os europeus se valorizassem ou depreciassem e, por isso mesmo, poderiam servir como instrumentos para o empenho de moralização que caracterizou os escritos de então. No conjunto desses relatos, aquele de um viajante que talvez não tenha viajado, o Viagens de Jean de Mandeville, chama especial atenção, pois os tópicos e lugares comuns são de tal forma constitutivos desse relato que, melhor que nenhum outro, ele nos permite refletir – e este é o objetivo desta comunicação – sobre como as reminiscências literárias e iconográficas relativas às maravilhas orientais alimentaram a expectativa dos leitores ou ouvintes de então não por um realismo cruamente sincero, mas por descrições do Oriente recheadas de elementos fabulosos, exóticos e até mesmo com padrões morais invertidos em relação aos dos cristãos.


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