Novas tecnologias, novas utopias

Fátima Vieira

Resumo


Começarei este meu trabalho falando de um paradigma utópico que, na minha opinião, se encontra emergente na viragem do século XX para o século XXI. Esse paradigma, como então exporei, caracteriza uma nova atitude do homem contemporâneo face à utopia, encontrando reflexos quer na nossa vida quotidiana e no pensamento político quer na própria literatura. O espírito reemergente toma a utopia simultaneamente como ideal e como sonho, isto é, como princípio orientador que, colocado no nosso horizonte, nos indica um caminho a seguir sem contudo nos fazer cair na tentação de o tentarmos realizar. Estamos portanto agora a entrar num quinto período (em relação aos quatro períodos descritos por Baccolini e Moylan) em que o sonho volta a ser acarinhado, tendo o utopista (e ainda bem que assim é) a consciência de que se trata apenas de um sonho.

Nas margens da literatura utópica canónica, a hiperutopia – designação que proponho neste trabalho para alguns sítios da Internet cuja textualidade e organização se fundamentam na tessitura narrativa da hiperficção – contribui para a ressurgência deste entendimento utópico informado pela índole desejante humana. A hiperutopia encerra em si uma renovação do género literário, mais conforme a estes tempos em que os leitores se vão assumindo cada vez mais como internautas, e em que, como premonitoriamente disse Foucault, a imaginação se torna cada vez menos histórica para assumir progressivamente uma feição mais espacial. No espaço virtual da Internet, a hiperutopia assegurará certamente a sobrevivência da utopia literária; até que o desenvolvimento de outras novas tecnologias conduza a mais (re)invenções utópicas.


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