A possível República de Platão

Carolina Araújo

Resumo


Este trabalho pretende apresentar a República de Platão como uma fonte antiga da tradição utópica, não só por sua proposta de fundar no discurso uma cidade justa, mas também de justificar argumentativamente a legitimidade desse gênero literário/filosófico a partir, principalmente, de considerações sobre a possibilidade de tal forma política. Serve-nos de fio condutor, então, o enfoque platônico do conceito de dýnamis (poder) e seu adjetivo cognato dýnaton (possível) sustentado a partir de dois eixos centrais:
I) O argumento de que o que se desenha com esse discurso fundador de cidades – que chamaremos, apesar do anacronismo, de utópico – é uma estrutura de poder político baseada no poder humano de evitar o erro pelo conhecimento. Se este não é um poder verdadeiramente infalível, isso não revoga a capacidade do discurso de revelar as conseqüências que adviriam dessa hipótese.
II) O enunciado do texto de que cidade justa aí construída não existe, existiu ou existirá, mas que jaz como modelo para quem quiser tomá-la como referência para suas ações. Essa indicação revela uma lapidação do sentido ordinário de possível, que deixa de se referir à executabilidade prática de todo um sistema, passando a indicar um referencial propriamente metafísico que pode ser realizado em diferentes graus.
Na interseção dessas duas linhas investigativas encontra-se a definição do gênero da filosofia, entendida como o discurso que anseia pela isenção do erro mesmo ciente da sua impossibilidade. Nesse cenário, parece-nos razoável concluir que a República inaugura uma proposta discursiva de ação política definida como filosofia, que servirá de padrão para o gênero utópico que se desenvolverá tempos depois.


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